...agradeça ao seu professor.
Acabei de me deparar com um acontecimento estupidamente ignorante (como todo e qualquer acontecimento referente à Rede Globo de Televisão), na tal "novela das 20:00" (ou 21:00, sei lá), Caminho das Índias.
Uma ricaça interpretada pela atriz Deborah Bloch parece ter perdido sua mansão de luxo, seu carro importado e alguns milhões de dólares para o marido 171 e, portanto, foi morar com um amigo da família (baixaria a vista) e, para garantir o almoço beira mar em Copacabana, começou a "dar aula para sobreviver". O tal amigo da família, interpretado pelo grande ator Caco Ciocler (que está perdendo tempo em papéis medíocres na Globo há tempos) e a personagem de Deborah começam a conversar. A personagem de Deborah diz:
- Vou viver minha vida, tenho dado muitas aulas... (algo assim)
O personagem de Caco Ciocler responde:
- Poxa, eu não acredito! Não aguento ver você nessa situação, dando aulas... (algo assim também, mas não menos pejorativo)
Assim...
Desde quando é vergonha dar aulas? Ser professor? Ensinar?
Desde quando a profissão do educador começou a ser rotulada como ato de bandidagem, mau-caratismo, sacanagem, imoralidade para que desse vergonha a alguém?
Sou professora há pouco tempo para me considerar a mais experiente de todas, mas me orgulho e muito da minha profissão.
Lido com vidas todos os dias e modifico-as. Não uso de artefatos ridiculamente fictícios, caleidoscópios cerebrais ou mesmo lobotomia, como fazem essas novelas "globais", para ensinar, para dedicar aquilo que sei às pessoas que ali estão. Meus telespectadores tem um outro tipo de show, porém com conteúdo de qualidade, capacidade crítica, transformadora e, acima de tudo, real.
Para que a dona Glória Peres, intitulada como "autora" da novela, possa ao menos pegar o lápis e colocar no papel toda essa baboseira que emociona tanto o povo brasileiro, que carece do mínimo de cultura e aprendizado, ela certamente deve ter passado, ao menos na fase de alfabetização, em uma escola.
Mesmo escrevendo esse plágio dela mesma (afinal a novela atual é idêntica a outra novela que ela escreveu, O Clone), ela precisou frequentar as carteiras de uma escola, fosse o que fosse, pois senão, nem saber escrever ela saberia. Para fazer toda essa teledramaturgia de qualidade duvidosa, ela precisou da atenção de um professor, que teve seu tempo e sua dedicação tomados por ela, para que quando crescesse se tornasse essa admirável (não por mim) "autora" de novelas.
Lamentável soltar esse tipo de comentário em horário nobre. Mais lamentável ainda é saber que a maioria das pessoas que assistem à novela estão comovidos com a personagem de Bloch, pois a coitada está "dando aulas".
Sinto vergonha de ser uma profissional da educação nessas horas. Sinto vergonha da assimilação de "dó" feita ao trabalho de professor. Dignos de dó são aqueles que vendem futilidade achando que é cultura, que vendem palavras achando que são modificadoras, que vendem a si mesmos produzindo algo de nível tão medíocre para sustentar seus caprichos e futilidades.
Posso não ganhar nem metade do salário que essa renomada autora ganha, nem fazer novelas e livros de sucesso e tampouco ter fama e atenção da mídia, mas o comentário infeliz que, por azar, acabei ouvindo, me faz acreditar que o senso de vida realmente não tem preço.
Parabéns Rede Globo,
Parabéns Glória Peres!
Produzindo cada vez mais mandioquinha e abobrinha para o povo brasileiro! Vocês são o verdadeiro Fome Zero!
terça-feira, 5 de maio de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)
